De muitas vozes, uma memória é construída. Assim como um traço ou camada de tinta na tela, a solidão não sobe em trono, tão pouco encontra reinado. Pela manhã é que se acende o incenso, o pó do café vira líquido na água quente e a caixa de som é ligada. O dedo viciado no aplicativo de música procura artista para cantar. Assim começa. A voz dentro da concha, o pássaro entalado na garganta, pede licença para bater asas.

No ateliê, entre uma pintura e outra, ressoa pelos quatro cantos: “Só tem eu e esse branco, ele me mostra o que eu não sei, e me faz ver o que não tem palavras. Por mais que eu tente, são só palavras, por mais que eu me mate, são só palavras”. A dimensão do trabalho dum artista começa pelo próprio corpo. Foi assim que entendi que meu ofício jamais seria solitário. Escrever um livro é trabalho coletivo, assim como desenhar.

Na época da faculdade, aprendi que a dança só pode existir em corpo aberto, e foi com ela, ali no palco, observando movimentos de perto. Assim como a voz carrega a melodia, a canção carrega a palavra. As imagens da década passada vieram com o mesmo frescor nesse final de semana. Ali, naquele festival de música no Memorial da América Latina, cabelos dançantes em fagulhas no calor do meio-dia, transmutaram-se num baile lindo.

Caetano Veloso escreveu uma vez, “o trabalho de uma mulher de maneiras tão diretas, de clima tão saudavelmente carnal e de pensamentos e disciplinas tão transcendentalistas.” Vero três vezes. Em 2018, “Tiraram meu defeito de dentro do meu peito. Disseram: teu defeito é só amar“. Foi com o álbum “Pedaço duma Asa” que pari uma exposição inteira. “Invisível Plagiado – O pó que restou das asas.”

Esse mesmo álbum não foi só matéria brilhosa para mim, ele inspirou outros artistas, ele ajudou a nomear o livro premiado de estreia da escritora Gabriela Soutello, “Ninguém Lembrará de Mim”.

Em fevereiro, mês em que nasci, existe o bloco forrozin. O carnaval também mudou depois dele. Uma frase dela, no WhatsApp “Amigo, acho que esse não é o lado meu de que você mais gosta, mas te ver lá foi muito importante para mim“.

A resposta é que ali, no som dela, não existe lado, apenas o compromisso de existir e depois propagar isso. Nunca houve solidão ao seu lado, só solitude e alegrias. Com muitas camadas e ruídos de vozes subterrâneas – Obrigado, querida amiga Mariana Aydar. 


Victor Grizzo

Victor Grizzo é artista visual, ilustrador e escritor. Graduado em História pela Universidade de São Paulo. Desde muito pequeno cursou aulas de desenho e pintura. Frequentou diversos ateliês de artistas contemporâneos relevantes na produção visual brasileira. Sua pesquisa artística trabalha questões relacionadas à ciência, anatomia e reflexões acerca da História da Arte, tomando como plataforma diferentes mídias (pintura, desenho, instalações). Participa de inúmeras exposições coletivas e individuais em galerias, centros culturais e museus de São Paulo e Rio de Janeiro. Como educador, já passou por inúmeras instituições de ensino como Colégio Tutor, Teia Multicultural e Senac. Desenvolve trabalhos na área de ilustrações para livros, capas de disco e colaboração em ativações de empresas. Possui dois livros publicados: “Luz dos Olhos Meus” publicado pela Casa Philos e “O Segredo que Habitava o Armário” publicado pela editora Flamingo no Brasil, Portugal e Angola.

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